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"A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida"
( Vinícius de Morais)

22 setembro 2009

Ele não ligou


Série:
Causos de alguém




Eles sempre foram grandes amigos e o quase namoro sempre foi um fator estimulante para ela. Vários encontros, grandes conversas e risos de sobra. Se davam muito bem como confidentes. O que acontecia entre eles? Quase nada e o que para ela era o principal- beijos, muito pouco. Achava estranho, mas como ele era um cara diferente, daqueles sensíveis, atenciosos e passava longe de ser mais um desses cafas- 'bonitinhos mas ordinários', nunca resistia. Ligava e pronto. Ele sempre aparecia com um convite para esticar a noite em um barzinho legal. Não tinha dia certo e nem hora ou comemoração. Qualquer dia era dia. Afinal, eram amigos.

Aqueles momentos picantes eram o sonho dela. Queria experimentá-los com ele. Imaginava o dia em que não deixaria ele ter chance de se esquivar. Deixaria ele ficar vermelho de vergonha. Achava mesmo aquilo excitante. Se contentava com pouco imaginando o porvir. Conseguiu rapitá -lo duas vezes para o motel. Seus sonhos eróticos eram sempre melhores do que seu desempenho na cama. Ela tinha esperança. O fato de serem amigos e não terem pudores ia amadurecer a relação. Disso não tinha dúvida. Pelo menos, é o que ela mais queria.

Mas a vida parecia que não apostava muito nesse namoro e a coisa esfriou. Não se formalizou o término de nada. Cada um com suas prioridades. Nisso, outros relacionamentos vieram e ela não quis apostar mais. Voltou para o ex. E noivou. A distância era de pensamentos e quilômetros, e só foi driblada pela carta que ele a escreveu quando descobriu do seu casamento. Pois é, um homem que ainda escreve cartas...E essa queria se desculpar por não ter sido aquele homem que ela esperava, e pedia para que o tempo voltasse e lhe desse uma chance de resgatar a amizade. Sim, cartas de amor são ridículas, mas não nesse caso. Era um pedido de desculpas por não ter sido “o homem”. Aquilo a marcou.

Anos se passaram, e com ela, a impiedosa crise dos sete anos no casamento. Telefone ao punho, ela liga. Acima de tudo, ainda se falavam, e ele, mais do que ela, soluçava sua vida sentimental. Se encontraram e riram juntos sem a precisão da prestação de contas do passado. No carro, sentia-se que todo o sentimento cultivado e deixado suspenso no ar seria posto à prova. Encurtaram o caminho e aquelas conversas banhadas a puro tom de ironia e provocação deram um ar relaxado ao reencontro. As intenções dele já não encabularam. Aliás, quase sempre o contrário era o corriqueiro. Estranhou a sua astúcia quando nos momentos mais picantes da conversa ele dava voltas pelas ruas dos motéis- os mais badalados. Ela pôs uma bala de menta na boca e imagina em voz alta o prazer que poderia proporcioná-lo. Risos. Impaciente pelas voltas e obrigada a ver pela janela do carro os motéis convidativos, ela explode:

-A bala já está acabando e só tenho essa! Vamos ficar poluindo o ar até quando?

Essa intimação foi no mínimo criativa e suas mãos os guiaram direto para aquele motel ‘puro extasy’. Ele enche e entra na banheira. Ela desejava a todo instante, na cama quentinha ao lado dele. Num pensamento egoísta, e por conta da sua carência, resolveu garantir o seu clímax e só depois saciá-lo. Aquela troca de abraços e beijos talvez tenha a distraído, e ela não se deu conta de que ele tinha parado. Sempre muito direta ela pergunta se ele tinha conseguido. Aquele sim nunca foi por ela entendido. Sabia que nunca ia admitir não ter chegado aos finalmente logo com ela. Não quis desmascarar e jogar na cara o que era óbvio. Seu telefone não tocou no dia seguinte.

Ela sempre ouvia da amiga que a opção sexual dele era duvidosa. Por mais que não digerisse isso servia para aliviá-la. Esse fato ficou em segredo até o momento para provocar uma quebra na responsabilidade do fiasco. Era o meu trunfo dessa história. Afinal, essa possibilidade explicaria a sua falta de experiência no trato com as mulheres, ausência de namoradas, todo aquele mistério com suas companhias e noitadas com amigos desconhecidos. O telefone não tocava e ela sabia que tinha perdido um amigo. Era o que restava pensar. Ele tomou um pavor dela e isso a incomodava. Quando finalmente se falaram pela net, ele confessou que estava morando com uma prima e que depois explicava o acontecido. Aquilo soou estranho mas já era um fato menos ridículo, pois chegou aos seus ouvidos que ele passeava, estranhamente, numa noite de sexta com um casal de homossexuais. Aquela amiga tinha lá suas razões mesmo.

Ele não ligou nunca mais e ela não tem mais dúvidas- a vida é um arcoíres.
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